Bastardos – Trajetos do punk português (1977-2014)

 

 

A herança do filho bastardo

Nos últimos tempos a vontade de chafurdar no legado do punk português tem aumentado, facto ao qual não será alheia a criação do KISMIF, um projecto sociológico de investigação sobre a temática. Igualmente relacionados estarão certamente os fundos recebidos a fim de sustentar a dita investigação, cujo mérito na recolha documental não poderá nem deverá ser desprezado.

Já claramente questionável é a forma de abordar o assunto, na eterna demanda pela típica postura de isenção inerente a qualquer investigador. Insenção essa que jamais é concretizada ou não fosse um dos princípios básicos da física quântica que ao observador é impossível não ser parte da experiência e por isso interferir na mesma. Assim, e especialmente no caso do punk, só haveria a ganhar na assumpção sem limites nem barreiras de que a isenção não é um valor que interesse, já que o punk será sobre tudo menos sobre isenção.

Assim, o que resulta efectivamente de “Bastardos – Trajetos do punk português (1977-2014)” é uma colectânea desgarrada de entrevistas sobre o modo como cada um dos entrevistados percepciona o punk. Isto resulta em várias respostas idênticas e não necessariamente vigorosas, com a única diferença a residir no interlocutor. Quantas vezes precisamos de ouvir falar nos Faíscas, Minas & Armadilhas ou Aqui D’el Rock? Quantas mais vezes precisamos de ouvir que ser punk é ser contra o sistema?

O que precisávamos de facto de um documentário sobre o punk português era que fosse feito de histórias do Ribas, do Rato, da Rita, do Xico ou do Fonseca. O que precisávamos era de ouvir aquela vez em que houve porrada com os carecas, em que os Straights e os punks discutiam o sexo dos anjos, aquela vez em que um gajo fez um stage-dive na Academia de Linda-A-Velha e se partiu todo por ninguém o agarrar, aquela vez em que a polícia entrou, de espingardas em riste, na Casa Enkantada para interromper um concerto. O que precisávamos acima de tudo era de lendas, de mitos, de histórias para contar quando fossemos avós, para perceber que o punk foi feito por pessoas com sangue na guelra, com pelo na venta e de uma maneira ou de outra com destroy tatuado na alma.

O que também precisávamos era que houvesse um mínimo de critério nos entrevistados, de alguma noção de edição, assim como de captação de imagem e som, porque há uma diferença entre produção artesanal e desleixo, e isso nota-se.

E o que não precisávamos era de atirar uma das poucas coisas que tivemos dignas do cada vez mais ameaçado espírito lusitano de Viriato ou do Regicídio, ser dissecada pelas garras do academismo, especialmente num momento em que Portugal precisa de se reinventar e as novas gerações de perceber que cada um pode fazer o que quiser quando quiser independentemente de saber como fazê-lo.

Os assassinos continuam no poder, o presidente ainda merece ser violado e há ainda necessidade de violentar o sistema, factos a que este documentário parece ser alheio.